Profissionais do CHULC em missão pela Ucrânia

A missão de Carla Matos e Pedro Silva durou oito dias, em mais de 7 mil e 500 quilómetros de viagem. No início de março partiram, rumo à Polónia, dez pessoas em cinco carrinhas cheias de mantimentos. Regressaram a Portugal as dez pessoas, as cinco carrinhas e várias famílias ucranianas à procura de um refúgio seguro, depois de terem fugido do seu país.

Carla Matos, enfermeira do serviço de Urologia do CHULC, foi desafiada por uma empresa de Palmela e decidiu, numa sexta-feira de manhã e em apenas duas horas, que iria partir para a Polónia dois dias depois. Convidou Pedro Silva, interno da especialidade na unidade, de forma repentina. “Eu estava de saída de banco. Um banco chato. A enfermeira Carla fez-me o convite de uma forma inesperada. E eu, como estou sempre disposto a tudo e não quero deixar nenhuma oportunidade para trás, decidi que era melhor ir”, relata Pedro.

Prepararam-se sem receios, com o apoio dos responsáveis do CRI de Urologia e do Conselho de Administração do CHULC, para se juntarem a outros voluntários, numa caravana humanitária criada e organizada pela empresa da margem sul do Tejo, em articulação com a associação Ukranian Refugees UAPT e o grupo Ajuda para a Ucrânia.

“A organização da missão perguntou-me primeiro se eu conduzia. Disse que sim, claro”, conta Carla. “A missão tinha dois objetivos: entregar mantimentos, que resultaram de muitas dádivas, às associações que estavam a dar apoio aos refugiados na fronteira entre a Polónia e a Ucrânia e, no regresso, trazer pessoas que estavam sinalizadas para ser acolhidas por várias famílias em Portugal. A comitiva era composta por dez pessoas com a tarefa de conduzir as cinco carrinhas. A organização queria garantir que no grupo estivessem um médico e um enfermeiro para dar assistência às mulheres e às crianças que estavam à nossa espera”.

Na bagagem levaram ferramentas básicas, necessárias para prestar o apoio clínico mais imediato e muito entusiamo. Fizeram, entre domingo e terça-feira, até à cidade de Przemysl, 3 mil 562 quilómetros. “Nessa altura, o nosso objetivo era chegar o mais depressa possível”, refere Pedro, “porque tínhamos a perfeita noção de que qualquer momento demorado a mais, representava mais sofrimento para aquelas pessoas e mais grave se tornaria qualquer situação do ponto de vista clínico”.

À chegada, em plena noite, entregaram os mantimentos e recolheram uma primeira família. A partir da manhã seguinte, já em plena rota de regresso, o grupo recolheu mais mulheres e crianças ucranianas, noutras duas cidades polacas. Famílias que até ali haviam passado por muito: “Aquelas pessoas não nos conheciam, sabiam que representávamos algum tipo de referência, apenas isso. Saíram da Ucrânia com uma mão à frente e outra atrás e estavam a entregar-nos as suas vidas e o pouco que tinham”, relata Pedro. “Confiaram em nós, com alguma hostilidade… perfeitamente natural. Ao longo da viagem foram percebendo as nossas verdadeiras intenções”, acrescenta Carla.

Nas três noites seguintes, a caminho de Portugal, a comitiva pernoitou em unidades hoteleiras ou em casas de particulares. “Para isso, contamos com o apoio incondicional da equipa do CRI de Urologia. Não sendo uma missão do CRI de Urologia, tornou-se também, na verdade, uma missão de toda a equipa, que estava à distância, mas perto de nós. Nunca vamos ter palavras que cheguem para agradecer tamanha generosidade”, conta, orgulhosa, a enfermeira Carla.

“De repente, através de uma articulação feita com o professor Luís Campos Pinheiro, responsável do serviço, fizeram uma recolha de fundos. Entre todos foi possível angariar quase mil euros. Valor que permitiu pagar uma das estadias em França e a produção de sacos com lanchinhos. Antes disso, a filha da enfermeira chefe também nos havia ajudado, proporcionando outras refeições e a organização de uma dormida na Alemanha”, acrescenta o médico.

A última madrugada da viagem ficou marcada pela “felicidade do acolhimento”, assim descrevem Carla e Pedro. Depois da passagem pela fronteira de Vilar Formoso, o grupo foi deixando as mulheres e a crianças junto das famílias que as aguardavam, numa estreita articulação com as autarquias de várias localidades.
O médico e a enfermeira estão felizes pela tarefa que desempenharam em oito dias.


“Sabemos que [as pessoas acolhidas] estão todos bem de saúde e devidamente integradas”.

Pedro Silva, interno de Urologia

“Esta missão trouxe-nos à lembrança a razão pela qual escolhemos a saúde para as nossas vidas”.
Carla Matos, enfermeira do serviço de Urologia


O presente texto resulta de uma conversa entre os profissionais indicados e o Gabinete de Comunicação e Imagem do CHULC.

Autoria de Carla Matos e Pedro Silva

 

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